Páginas

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

12 de agosto de 1983: a sindicalista Margarida Maria Alves era assassinada a mando de fazendeiros na Paraíba

Margarida Maria Alves discursando no largo da Catedral da Luz, em Guarabira, ao lado do então sindicalista Lula. Foto Sedup/Diocese de Guarabira

Pistoleiros matam com um tiro no rosto, na frente de casa, Margarida Maria Alves, presidenta do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande, na Paraíba. As denúncias de abusos e desrespeito aos direitos dos trabalhadores nas usinas da região, feitas por Margarida Alves, resultaram no seu assassinato, encomendado por fazendeiros.

No momento do tiro de espingarda no rosto, desferido por um matador de aluguel, ela estava em frente à própria casa, em Alagoa Grande (Paraíba), na presença do marido e do filho de apenas dez anos de idade.

O crime foi considerado político e comoveu a opinião pública nacional e internacional, com ampla repercussão em vários organismos políticos de defesa dos direitos humanos. Margarida costumava dizer que era “melhor morrer na luta do que morrer de fome".

Filha mais nova de uma família de nove irmãos, foi a primeira mulher eleita para a presidência do Sindicato de Trabalhadores Rurais (STR) de Alagoa Grande em 1973. Foi também fundadora do Centro de Educação e Cultura do Trabalhador Rural.

À época de seu assassinato, Margarida movia mais de cem ações trabalhistas na Justiça do Trabalho local, batendo de frente contra interesses dos donos da Usina Tanques, a maior usina de açúcar do Estado, e de alguns “senhores de engenho”, remanescentes do período em que os engenhos dominavam a economia açucareira.

Fazendeiros não ligados à lavoura de cana também se viram em posição oposta à sindicalista, que denunciava abusos contra trabalhadores rurais e o descumprimento da legislação trabalhista.

Esses fatos, considerados inusitados, em função da então incipiente democracia brasileira, geraram grande impacto e indignação na indústria canavieira da região. Em consequência disso, Margarida passou a receber constantes ameaças. Um dia antes de seu assassinato, participou de um evento público, onde acabou falando publicamente sobre as “recomendações” que vinha recebendo para que ela “parasse de criar caso”. Apesar das ameaças, a sindicalista fazia questão de torná-las públicas.

O assassinato de Margarida continua impune. Dos cinco acusados, todos ligados ao chamado “Grupo Várzea”, que se julgavam atingidos por suas constantes denúncias, apenas dois foram julgados e absolvidos.

Dos outros três, um morreu e dois estão foragidos. O proprietário da Usina Tanques, líder do "Grupo da Várzea", e o seu genro, então gerente da usina, foram acusados de mandantes do atentado contra a sindicalista.

Após sua morte, Margarida tornou-se um símbolo político e representativo das mulheres trabalhadoras rurais. Em 1988, Margarida recebeu, postumamente, o Prêmio Pax Christi Internacional (Paz de Deus, em latim), movimento católico de respeito aos direitos humanos, justiça e reconciliação em regiões devastadas por conflitos.

Margarida Maria Alves era muito ligada aos movimentos sociais e amiga pessoal do Arcebispo Emérito da Paraíba, Dom Marcelo Pinto Carvalheira, à época Bispo de Guarabira. O Monsenhor Luis Pescarmona (foto), à época Coordenador da CPT, Comissão Pastoral da Terra, disse lembrar muito de Margarida: “Ela era muito firme e decidida e tinha uma grande poder de convencimento, acreditava naquilo que dizia. Da morte de Margarida muitas Margaridas brotaram e acenderam a luta das mulheres”, afirmou.

O discurso de Margarida Maria Alves, que a tornou célebre na luta pela conquista da terra, foi feito em Guarabira, no Largo da Catedral da Luz. Naquele dia, estavam presentes lideranças expressivas da resistência ao regime militar, dentre as quais o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Dias depois ela seria barbaramente trucidada, com tiros de espingarda calibre doze, efetuado à queima roupa. No dia do assassinato, misteriosamente, a cidade sofreu num blecaute, o que facilitou na fuga dos criminosos.

Em 2000, deu seu nome à “Marcha das Margaridas”. Essa mobilização ocorre sempre em agosto e reúne milhares de mulheres trabalhadoras rurais em Brasília. Na passeata, as mulheres apresentam pautas com reivindicações para melhorar a vida no campo e na floresta em todo o País. Elas reivindicam melhorias em relação à economia solidária, renda, agroecologia, segurança alimentar, emprego, dentre outros. A marcha é organizada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) e Central Única dos Trabalhadores (CUT).

Com Agência Brasil, Memorial da Democracia e Nordeste1

Nenhum comentário: