sábado, 28 de julho de 2018

Agricultor, artesão, propagador do Xaxado e apreciador de perfume francês. Conheça um pouco sobre o Cangaceiro Lampião, morto há exatos 80 anos.

Por: Diogo Xavier, de Recife, PE

Lampião, aos 32 anos de idade, e Maria Bonita.
Foto publicada no Portal Vermelho, fonte desconhecida.
O Cangaço foi um dos movimentos mais marcantes do início do Século XX no Nordeste Brasileiro, composto por homens que não tinham muito a perder e largavam os trabalhos na lavoura para começar uma vida no banditismo. A figura mais conhecida do cangaço é Virgulino Ferreira da Silva, Lampião. Nascido em Serra Talhada, em Pernambuco, cresceu como um trabalhador do campo e também trabalhava como artesão. Numa de suas buscas por gado, entre os espinhos da caatinga, furou o olho direito ficando cego desse. Isto fez com que posteriormente fosse chamado de Rei de um só olho, ou como escreveu o New York Times, “Lampeão de um olho só”.

A entrada no Cangaço aconteceu em 1919, após seu pai ser assassinado pela Polícia a mando de um coronel. Junto com seus dois irmãos entrou no bando de Sinhô Pereira, maior cangaceiro até então, dali fazendo sua trajetória. A rapidez no gatilho lhe deu o apelido do instrumento que iluminava as noites sertanejas e a capacidade de liderança fez com que ele substituísse Sinhô Pereira e tomasse conta do bando, tornando-se o líder.

Lampião criou a estética adotada pelo cangaço e pelo sertanejo, que é conhecida até os dias de hoje. Alfabetizado desde criança trouxe inovações para os bandos. Era também muito vaidoso, o que fazia com que importasse perfumes franceses para utilizar nos momentos especiais. Outro fato curioso sobre a personalidade de Lampião era que ele bordava e costurava, dessa forma muitas das vestimentas que ele e seus homens utilizavam eram feitos pelo próprio Virgulino, que ajudou a perpetuar as imagens desses homens que andavam pelo sertão vestidos com muita pompa.

O ritmo Xaxado, que é um dos percussores do Forró, nasce também com o bando de Lampião, sendo uma dança onde o passo era marcado pela batida da bandoleira da espingarda, sendo assim uma diversão para o grupo que utilizava os instrumentos do combate.

As mulheres não podiam entrar nos bandos e seguir junto com os cangaceiros, mas isso mudou quando, passando pela Bahia, em 1930, Lampião conhece Maria Bonita e ela foge com o bando. A entrada de Maria Bonita era tida como um rapto de Lampião, mas posteriormente foi descoberta uma carta deixada pela mesma para o seu esposo onde ela relata já ser apaixonada pelas histórias contadas sobre Virgulino. Outra mulher de destaque no Cangaço é Dada, que foi companheira de Corisco, única mulher a pegar em armas e chegou a liderar o bando quando Corisco se feriu em combate.

Literatura de Cordel
A literatura do sertão contou as histórias de Lampião e seu bando, o que ajuda a reforçar o imaginário sobre o cangaceiro. O cordel “A chegada de Lampião no inferno” de José Pacheco é um dos mais conhecidos cordéis vendidos até hoje, além de diversas composições sobre a história do cangaceiro.

O cinema também tem diversas obras sobre o tema, como o conhecido “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha, no período do Cinema Novo, até “Baile Perfumado”, que relata o cotidiano dos cangaceiros.

A morte de Lampião se deu na fazenda de Angicos, em Sergipe, [no dia 28 de julho de 1938] quando uma volante comandada pelo Tenente João Bezerra fez uma emboscada e entrou no esconderijo ao amanhecer e metralhou os 11 cangaceiros que dormiam ali. Dentre eles, Lampião e Maria Bonita.

Nos últimos 80 anos, a imagem de Lampião vem se modificando, pois aquela figura que aterrorizava o sertão já é vista como alguém que lutava contra os coronéis que oprimiam o povo. Essa maneira de enxergar o cangaço parte também do distanciamento com o ocorrido, já que é possível uma análise sobre o Cangaço enquanto um reflexo do total abandono que os sertanejos eram submetidos pelos governos no momento, deixando com que esses coronéis tivessem vida e morte das pessoas em suas mãos.

Fotografia mostra as cabeças de Lampião (última de baixo), Maria Bonita (logo acima de Lampião) e outros cangaceiros do bando. Foto: Reprodução de 'Ciclo do Cangaço: Memórias da Bahia', de José Castro/Wikipedia.
Fonte: Esquerda Online

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